Tontura todo dia não é labirintite! Descubra as principais causas

Sentir tontura todo dia não é normal e diferentemente do que muito se fala, é improvável que a causa seja labirintite — que é uma doença aguda, não crônica, muito pouco frequente no consultório.
A tontura é uma das queixas mais frequentes nos consultórios e, para muitos pacientes, uma das mais desafiadoras.
Antes de qualquer coisa, você deve saber que a tontura constante não é algo natural do envelhecimento, nem um mero sinal de estresse. É um sintoma que indica que algo no sistema de equilíbrio do corpo está em desarmonia.
O nosso equilíbrio depende de uma orquestra sensorial onde atuam o labirinto (ouvido interno), a visão e a propriocepção (sensores em músculos e articulações), junto ao cérebro que integra essas informações. Quando há alguma falha nessa comunicação, a tontura emerge.
Qualquer tontura diária ou que ocorre muito frequentemente exige profunda investigação para identificar a raiz do problema — que pode ser vestibular (no labirinto), neurológica, cardiovascular ou até mesmo metabólica.
Neste artigo, procuro desmistificar essa questão e apontar o caminho certo para a melhora da sua tontura e, consequentemente, da sua qualidade de vida. Continue a leitura!
Por que sentir tontura todo dia não é labirintite?
O termo “labirintite” é frequentemente usado como sinônimo de tontura, se não como algum tipo de doença crônica ou sintoma decorrente da idade. São duas interpretações incorretas que mais confundem do que esclarecem.
A primeira coisa que você deve saber é que a tontura é um sintoma, não uma doença propriamente, e sempre haverá uma causa por trás dela — vários diagnósticos são possíveis, e para cada um deles há um tipo de tratamento específico.
Em segundo lugar, quero que você entenda que o termo labirintite, na verdade, se refere a uma infecção aguda que acomete o labirinto, uma estrutura que fica dentro do nosso ouvido e que está diretamente relacionada com o nosso equilíbrio e com a nossa audição.
A labirintite é um evento muito raro, cujos sintomas se manifestam por alguns dias a semanas. Entretanto, é considerado um quadro grave que requer acompanhamento médico, principalmente quando há possibilidade de origem bacteriana.
Tontura não é tudo igual
Outra questão que devo esclarecer é que a tontura engloba diferentes sensações, e saber identificar as principais delas pode ajudar muito no diagnóstico. Os principais tipos são:
- vertigem: é a sensação de rotação, como se o indivíduo ou o ambiente estivessem girando ou balançando — frequentemente ligada a disfunções no labirinto;
- instabilidade ou desequilíbrio: é a insegurança ao andar, a sensação de que você pode cair a qualquer momento, sem o componente de giro — pode estar relacionada a problemas no ouvido, neurológicos ou proprioceptivos;
- pré-síncope: é a sensação de desmaio iminente, acompanhada de escurecimento visual ou fraqueza — frequentemente associada a quedas de pressão arterial.
Ao relatar uma tontura diária, o paciente deve tentar identificar qual dessas sensações é a principal, pois essa informação é o primeiro passo para o direcionamento do diagnóstico. A descrição do sintoma, portanto, deve ser a mais precisa possível.
É claro que em muitos casos a tontura é difícil de ser interpretada ou descrita, mas até em quadros onde o paciente cita uma tontura inespecífica, essa informação é útil para descartar possibilidades e traçar uma linha de investigação.
O que pode causar tontura todo dia?
Se não é labirintite, então o que causa tontura diária?
Existem muitas possibilidades, e só uma avaliação médica detalhada pode determinar a origem do sintoma. Entretanto, alguns diagnósticos são muito frequentes em pacientes com esse tipo de queixa, como a VPPB, a TPPP e a hipofunção vestibular bilateral. Explico melhor a seguir.
VPPB (vertigem posicional paroxística benigna)
A VPPB é a famosa “tontura dos cristais”, caracterizada por episódios breves de vertigem intensa (sensação de ver tudo girar) desencadeados por determinados movimentos da cabeça, como se abaixar, levantar ou virar de lado na cama.
Nesse caso, a tontura acontece justamente devido ao deslocamento dos cristais de cálcio dentro do labirinto, o que altera os sinais elétricos enviados ao cérebro gerando distorções na percepção espacial. Na VPPB, porém, a tontura não é constante, dura apenas alguns segundos e ocorre apenas durante a movimentação específica que atua como gatilho do sintoma.
Essa é a causa mais comum de tontura e que, felizmente, tem um tratamento muito simples e rápido, que é a manobra de reposicionamento dos cristais.
TPPP (tontura perceptual postural persistente)
A TPPP é considerada uma das causas mais comuns de tontura crônica e subdiagnosticada. Ela geralmente surge após um evento de tontura aguda (como uma crise de ansiedade, uma crise de VPPB ou até um AVC), o que desencadeia um quadro de hipervigilância postural, frequentemente associada a uma sensação de instabilidade crônica.
Os sintomas costumam surgir ou piorar em ambientes com muitos estímulos visuais (como supermercados, shoppings e multidões) ou diante de situações semelhantes ao evento primário que desencadeou a condição. Não é uma doença psiquiátrica primária, mas uma disfunção de processamento cerebral que exige tratamento específico com antidepressivos, reabilitação vestibular e Terapia Cognitivo Comportamental (TCC).
Hipofunção vestibular bilateral
A hipofunção vestibular é justamente a diminuição da função do labirinto, que comumente gera uma sensação de desequilíbrio constante, principalmente durante alguma movimentação.
É um quadro que pode surgir devido a alguma agressão no labirinto causada por medicações ototóxicas ou síndromes, mas nem sempre é possível determinar com precisão a causa primária.
O tratamento é realizado por meio da reabilitação vestibular, que consiste na realização de técnicas e exercícios para melhorar o equilíbrio e a coordenação.
Entenda, porém, que essas são apenas algumas possibilidades. Vários outros quadros podem causar tontura todo dia, incluindo alterações metabólicas e doenças neurológicas. Somente um médico especialista, que neste caso é o otoneurologista, pode oferecer um diagnóstico confiável e definir uma estratégia de tratamento eficaz.
Como é feito o diagnóstico da tontura?
Na consulta médica com o otoneurologista, o ponto de partida é a avaliação clínica, onde o médico fará perguntas detalhadas sobre o tipo de tontura, a duração, os gatilhos, e possíveis sintomas associados, como perda auditiva, zumbido e cefaleia.
Na sequência, o exame físico é realizado com testes específicos para avaliar a função do labirinto e sinais de algum quadro neurológico, entre outros procedimentos.
A depender das características observadas, exames são solicitados e podem incluir audiometria, exames de sangue (para rastrear anemia, glicemia ou alterações de tireoide, por exemplo) e testes vestibulares específicos, como a Vectoeletronistagmografia ou o vHIT.
A avaliação clínica, porém, é o mais importante para o diagnóstico da tontura, pois nem sempre os exames são capazes de determinar com precisão a causa do sintoma — frequentemente, inclusive, recebo pacientes com queixas de tontura diária cujos exames são todos normais.
Quando procurar um médico?
Sentir tontura todos os dias não é normal e se automedicar pode mascarar problemas tratáveis ou até gerar outros problemas de saúde. Não raramente, pacientes sofrem com tontura por meses ou até anos, com quadros que podem ser resolvidos facilmente em uma única consulta, como é o caso da VPPB.
Sendo assim, se você sente tontura todo dia, consulte um especialista. O médico otoneurologista é o otorrino dedicado às condições e doenças que causam tontura e é o profissional mais embasado para investigar o seu quadro e indicar a melhor linha de tratamento disponível.
Para encerrar, esclareço que existem recursos e tratamentos para todos os tipos de tontura, mas o manejo das diferentes causas pode variar significativamente. Não se automedique e tenha muito cuidado com as promessas milagrosas que são ofertadas por aí, sobretudo na internet. Se você sente tontura todo dia, consulte um otoneurologista.