Manobra de Epley: para que serve, como é feita e quando funciona?

A manobra de Epley é uma técnica utilizada no tratamento da vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) de canal semicircular posterior. Por meio de uma sequência de movimentos da cabeça e do corpo, a manobra ajuda a conduzir os otólitos deslocados do ouvido interno de volta a uma região onde deixam de provocar vertigem.
A tontura é uma queixa frequente em consultórios médicos e nem sempre é fácil identificar sua causa. Entretanto, um dos diagnósticos mais comuns é a chamada vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), popularmente conhecida como “tontura dos cristais”.
Uma das principais formas de tratamento da VPPB é a manobra de Epley, um procedimento simples, não invasivo e bastante eficaz. Entretanto, ela não é uma solução para qualquer tipo de tontura ou “labirintite”.
Neste artigo, explico para que serve a manobra de Epley, como ela funciona, como é realizada, quais são os riscos e por que o diagnóstico correto deve vir antes do procedimento. Confira!
O que é a manobra de Epley e para que serve?
A manobra de Epley é uma manobra de reposicionamento canalicular utilizada principalmente para tratar a VPPB do canal semicircular posterior, a forma mais comum da doença.
Na VPPB, pequenas partículas de carbonato de cálcio chamadas otocônias — conhecidas popularmente como “cristais do ouvido” — saem do local onde deveriam permanecer e chegam a um dos canais semicirculares.
Quando a pessoa movimenta a cabeça, essas partículas deslocadas podem movimentar o líquido existente dentro do canal e estimular inadequadamente os sensores responsáveis pela percepção do movimento. O cérebro recebe, então, informações conflitantes sobre a posição da cabeça, desencadeando a vertigem.
A manobra de Epley utiliza movimentos sequenciais da cabeça e do corpo e a ação da gravidade para conduzir essas partículas para fora do canal semicircular de volta ao utrículo (pequena bolsa localizada no vestíbulo da orelha interna que atua diretamente na detecção da gravidade e do equilíbrio), onde deixam de provocar os sintomas.
Por isso, quando corretamente indicada, a melhora é muito rápida.
Como é feita a manobra de Epley?
A manobra de Epley é realizada por meio da realização de uma sequência de movimentos da cabeça e do corpo.
O procedimento começa com o paciente sentado. A partir daí, ele é conduzido para diferentes posições deitado, mantendo a cabeça em ângulos específicos.
Cada posição é mantida por um determinado período para permitir que os cristais se desloquem pelo canal semicircular sob a ação da gravidade até retornarem ao utrículo.
Durante alguns desses movimentos, é comum que o paciente apresente temporariamente vertigem e nistagmo (movimento involuntário dos olhos). Essa resposta pode fornecer informações importantes ao profissional durante a avaliação e o tratamento.
O lado para o qual a cabeça deve ser movimentada e a sequência adequada dependem de qual ouvido e qual canal estão envolvidos. Por esse e outros motivos que simplesmente assistir a um vídeo de passo a passo na internet e tentar reproduzir uma sequência genérica dificilmente resolve o problema.
A manobra de Epley serve para todo tipo de tontura?
Não. A manobra de Epley não é um tratamento geral para tontura.
Ela é indicada principalmente para a VPPB envolvendo o canal semicircular posterior. Existem outros tipos de VPPB que podem exigir diferentes manobras de reposicionamento, além de inúmeras causas de tontura que não têm qualquer relação com cristais deslocados.
Problemas neurológicos, cardiovasculares, metabólicos, alterações relacionadas à ansiedade, enxaqueca vestibular, doença de Ménière e outras condições podem provocar tontura e exigem abordagens completamente diferentes.
Muitos pacientes chegam ao consultório solicitando diretamente a manobra porque ouviram dizer que estão com os “cristais soltos”. Entretanto, sentir vertigem ao movimentar a cabeça não é suficiente para confirmar VPPB.
O diagnóstico correto deve vir antes do tratamento.
Quando utilizar a manobra de Epley?
A manobra deve ser utilizada quando existe diagnóstico de VPPB compatível com o canal tratado pela técnica.
Na VPPB, é comum o paciente apresentar:
- vertigem rotatória desencadeada por determinadas posições da cabeça;
- crises geralmente breves, frequentemente com duração inferior a um minuto;
- vertigem ao deitar ou levantar da cama;
- tontura ao virar para determinado lado na cama;
- sintomas ao olhar para cima ou abaixar a cabeça;
- náusea durante as crises.
Entre os testes utilizados para investigar a VPPB está a manobra de Dix-Hallpike, particularmente importante na avaliação da VPPB dos canais verticais.
Durante o teste, o profissional observa tanto os sintomas relatados pelo paciente quanto a presença e as características do nistagmo. O padrão encontrado ajuda a identificar o canal e o lado afetados e, consequentemente, escolher a manobra terapêutica adequada.
A manobra de Epley cura “labirintite”?
Não. A manobra de Epley não é um tratamento para qualquer doença popularmente chamada de “labirintite”.
A técnica trata especificamente determinados casos de VPPB. Na verdadeira labirintite, existe um processo inflamatório envolvendo o labirinto, e o mecanismo da doença é diferente.
Esse esclarecimento é importante porque o termo “labirintite” é frequentemente utilizado de maneira genérica para descrever praticamente qualquer tontura ou vertigem. Existem, porém, diversas doenças vestibulares diferentes, cada uma com diagnóstico e tratamento próprios.
Se a tontura não for provocada por uma VPPB compatível com a manobra, realizar Epley não solucionará sua causa.
É possível fazer a manobra de Epley para prevenir a tontura?
Não há benefício em realizar a manobra de Epley quando não existe VPPB ativa.
A técnica tem como objetivo reposicionar partículas que estão inadequadamente localizadas nos canais semicirculares. Se não existem sintomas ou evidências de que esses cristais estejam deslocados, não há o que reposicionar.
É verdade que a VPPB pode voltar. Uma pessoa que já apresentou o problema pode desenvolver um novo episódio meses ou anos depois, mas realizar Epley periodicamente sem sintomas não impede necessariamente uma recorrência.
A manobra de Epley pode ser feita em casa?
Alguns pacientes com diagnóstico previamente confirmado de VPPB podem ser orientados pelo profissional responsável a realizar alguns movimentos em casa, caso os sintomas retornem.
Isso é diferente, porém, de uma pessoa que nunca recebeu diagnóstico assistir a um vídeo e tentar realizar a manobra por conta própria.
Antes de indicar uma manobra, é necessário saber se a tontura realmente é VPPB, identificar o ouvido afetado e determinar qual canal está envolvido. Uma técnica inadequada pode simplesmente não funcionar e, em algumas situações, modificar a localização das partículas.
Além disso, limitações na coluna cervical, problemas vasculares e outras condições podem exigir adaptações ou tornar determinadas posições inadequadas.
Portanto, na primeira ocorrência de sintomas ou quando há mudança no padrão da tontura, a avaliação profissional é especialmente importante.
Quais são os riscos do procedimento?
A manobra de Epley é um procedimento seguro quando corretamente indicada e realizada.
Como o objetivo é movimentar partículas dentro do sistema vestibular, é esperado que algumas posições provoquem vertigem durante o procedimento. Também podem ocorrer temporariamente:
- náusea;
- sensação de desequilíbrio;
- instabilidade;
- mal-estar;
- tontura residual.
Em situações incomuns, os cristais podem migrar para outro canal semicircular, modificando o padrão da VPPB e exigindo outra manobra de reposicionamento.
Também é necessário considerar limitações individuais, principalmente problemas importantes na coluna cervical ou outras condições que dificultem os movimentos necessários.
Quanto tempo demora para a manobra de Epley fazer efeito?
Quando o diagnóstico e a manobra estão corretos, a melhora pode ocorrer imediatamente ou pouco tempo depois do procedimento.
Alguns pacientes, entretanto, continuam apresentando uma sensação leve de instabilidade ou tontura residual mesmo depois que as crises típicas de vertigem posicional desapareceram.
Por isso, a ausência de melhora imediata não significa automaticamente que o tratamento falhou. O paciente deve ser reavaliado para verificar se ainda existem sinais de VPPB e se o diagnóstico e o canal tratado estão corretos.
A VPPB pode se curar sozinha?
Sim. A VPPB pode apresentar resolução espontânea em parte dos pacientes.
Isso não significa, entretanto, que seja sempre uma boa estratégia simplesmente esperar. Enquanto as crises persistem, a pessoa pode sofrer limitações importantes nas atividades cotidianas e apresentar maior risco de desequilíbrio e quedas.
As manobras de reposicionamento permitem tratar diretamente o mecanismo da VPPB e geralmente proporcionam melhora rápida, razão pela qual são consideradas a principal abordagem terapêutica para os casos em que são indicadas.
Também é importante lembrar que a VPPB pode recorrer mesmo depois de um tratamento bem-sucedido.
E se a manobra de Epley não resolver a tontura?
A ausência de melhora pode ter diferentes explicações.
Alguns pacientes precisam repetir a manobra. Em outros casos, os cristais podem estar localizados em outro canal semicircular, exigindo uma técnica diferente.
Também existe a possibilidade de a tontura não ser causada por VPPB ou de haver mais de uma condição vestibular simultaneamente.
Outro ponto importante é diferenciar a vertigem posicional típica que existia antes do procedimento de uma leve instabilidade residual. O paciente pode deixar de apresentar a forte sensação de que tudo gira ao mudar de posição, mas continuar se sentindo inseguro ou levemente tonto por algum tempo.
Se os sintomas persistirem, retornarem ou apresentarem características diferentes, é indicada uma nova avaliação.
- Aproveite e confira também: Cuidados após a manobra de Epley e o que fazer caso a tontura persista
Perguntas frequentes sobre a manobra de Epley
Qual a diferença entre Dix-Hallpike e Epley?
A manobra de Dix-Hallpike é utilizada principalmente para diagnosticar VPPB dos canais verticais, observando a vertigem e o padrão de nistagmo desencadeados pelo posicionamento. A manobra de Epley é terapêutica e seu objetivo é reposicionar as partículas responsáveis pela VPPB quando o canal posterior está envolvido.
É normal sentir tontura durante a manobra de Epley?
Sim. Algumas posições movimentam os cristais dentro do canal semicircular e podem desencadear temporariamente a mesma vertigem característica da VPPB. Náusea e mal-estar também podem ocorrer.
Quantas vezes é preciso fazer a manobra de Epley?
A maioria dos pacientes apresentam melhora após a primeira sessão, mas algumas pessoas precisam repetir a manobra. O número necessário depende da resposta ao tratamento, do canal envolvido e da confirmação de que ainda existem sinais de VPPB.
A manobra de Epley pode piorar a tontura?
É comum ocorrer vertigem temporariamente durante a manobra. Em situações menos frequentes, as partículas podem migrar para outro canal semicircular e modificar o padrão dos sintomas. Se a tontura piorar ou mudar de característica após o procedimento, é indicada uma reavaliação.
A manobra de Epley funciona dos dois lados?
A sequência da manobra é direcionada de acordo com o ouvido afetado. Por isso, é importante identificar corretamente o lado e o canal envolvidos antes do tratamento.
O ponto fundamental, entretanto, é entender que o procedimento não é uma solução universal para qualquer tipo de tontura. A manobra de Epley é a principal ferramenta para o tratamento da VPPB de canal semicircular posterior e pode proporcionar alívio rápido somente quando corretamente indicada.