Enjoo, tontura e vertigem: entenda as diferenças e conheça 6 possíveis causas

Enjoo, tontura e vertigem costumam aparecer juntos porque os sistemas que controlam o equilíbrio e as náuseas estão conectados. Cinetose, VPPB, enxaqueca vestibular e outras alterações podem explicar essa combinação de sintomas.
O enjoo é uma sensação desconfortável que experimentamos diversas vezes ao longo da vida: a famosa “vontade de vomitar”. Trata-se de um sintoma muito comum, que pode ser transitório ou indicar uma condição que precisa de avaliação médica.
Problemas digestivos, como indigestão e gastroenterite, estão entre os possíveis desencadeadores. O enjoo também pode aparecer durante uma viagem de carro, ônibus, barco ou avião, situação conhecida como cinetose ou enjoo de movimento.
Entretanto, nem todo enjoo começa no sistema digestivo. Pessoas com alterações vestibulares, que normalmente provocam tontura, vertigem e desequilíbrio, também podem apresentar náuseas e vômitos, especialmente durante as crises.
Neste artigo, explico por que esses sintomas podem ocorrer juntos e trago seis condições vestibulares nas quais o enjoo é uma manifestação importante. Confira!
Enjoo, tontura e vertigem são a mesma coisa?
Não. Embora esses termos possam aparecer juntos, cada um descreve uma experiência diferente.
O enjoo, também chamado de náusea, é a sensação de que a pessoa pode vomitar. Ele pode ser acompanhado de salivação aumentada, suor frio, palidez e desconforto na região do estômago.
A tontura é um termo amplo. O paciente pode usá-lo para descrever diferentes sensações, como:
- cabeça leve ou vazia;
- impressão de que vai desmaiar;
- instabilidade ao caminhar;
- desequilíbrio;
- sensação de estar flutuando;
- visão escurecida ao se levantar;
Já a vertigem é um tipo específico de tontura, caracterizado pela sensação de movimento quando a pessoa está parada. Ela pode sentir que o ambiente gira ao seu redor, que seu próprio corpo está rodando ou que está balançando como se estivesse em um barco.
Essa distinção é importante porque uma sensação de desmaio ao se levantar, por exemplo, pode estar mais relacionada a alterações circulatórias, metabólicas ou ao uso de medicamentos. A vertigem, por outro lado, sugere o comprometimento do sistema vestibular ou de suas conexões com o cérebro.
Por que a tontura e a vertigem provocam enjoo?
Para manter o equilíbrio, o cérebro combina informações provenientes principalmente de três fontes:
- sistema vestibular, localizado no ouvido interno;
- visão;
- músculos e articulações, que informam a posição do corpo.
Quando essas informações não coincidem, o cérebro recebe sinais conflitantes sobre a posição e o movimento do corpo. Isso pode acontecer durante uma viagem de carro, mas também em diversas alterações vestibulares.
As estruturas cerebrais que processam o equilíbrio mantêm conexões com regiões envolvidas no controle de náuseas e vômitos. Por isso, uma vertigem intensa pode provocar enjoo, suor frio, palidez e vômitos mesmo quando não existe nenhum problema no estômago.
A intensidade do enjoo, porém, não revela sozinha a gravidade ou a causa da tontura.
6 causas de enjoo, tontura e vertigem
A seguir, comento algumas causas comuns que trazem esse conjunto de sintomas.
1. Cinetose
A cinetose, também conhecida como enjoo de movimento, ocorre quando há incompatibilidade entre as informações enviadas pelos sistemas responsáveis pelo equilíbrio e pela orientação espacial.
Ela aparece com frequência em viagens de ônibus, trem, carro, barco ou avião, quando ocorre uma movimentação passiva. Também pode ser desencadeada por simuladores, brinquedos de parque, jogos eletrônicos e experiências de realidade virtual.
Imagine uma pessoa lendo dentro de um carro: os olhos estão fixos no livro e informam ao cérebro que o corpo está parado. O sistema vestibular, por sua vez, detecta curvas, acelerações e frenagens.
Esse conflito sensorial pode causar:
- enjoo;
- tontura;
- suor frio;
- palidez;
- salivação excessiva;
- dor de cabeça;
- vômitos.
Olhar para um ponto estável no horizonte, manter o ambiente ventilado, evitar leituras durante o trajeto e fazer refeições leves antes da viagem são medidas que podem ajudar algumas pessoas. Quando as crises são frequentes ou muito intensas, o médico pode avaliar medidas preventivas específicas.
2. Labirintite
A labirintite é uma inflamação do labirinto, estrutura do ouvido interno responsável pelo equilíbrio e pela audição. Ela pode provocar vertigem intensa, desequilíbrio, enjoo e vômitos.
Como o labirinto também participa da audição, a verdadeira labirintite costuma causar sintomas auditivos, como:
- redução ou perda da audição;
- zumbido;
- sensação de ouvido tapado.
A inflamação faz com que o ouvido interno envie informações incorretas ou assimétricas ao cérebro sobre a posição e o movimento da cabeça. Essa divergência pode desencadear vertigem e sintomas neurovegetativos, como náusea, vômito, palidez e suor frio.
É importante destacar que “labirintite” não é sinônimo de qualquer tontura, e a doença propriamente dita é muito rara. Diagnósticos como VPPB e enxaqueca vestibular são muito mais frequentes.
3. Neurite vestibular
A neurite vestibular é uma inflamação do nervo vestibular, responsável por conduzir ao cérebro informações relacionadas ao equilíbrio provenientes do ouvido interno.
Geralmente, o quadro começa de maneira súbita, com vertigem intensa e persistente, desequilíbrio, enjoo e, muitas vezes, vômitos. Os sintomas podem durar horas ou dias e dificultar atividades simples, como ficar em pé ou caminhar.
Diferentemente da labirintite, a neurite vestibular normalmente não provoca perda auditiva nem zumbido, pois compromete o nervo vestibular e não as estruturas diretamente responsáveis pela audição.
Ainda assim, uma primeira crise de vertigem intensa, contínua e com dificuldade para andar precisa ser examinada rapidamente. Algumas alterações neurológicas podem produzir sintomas semelhantes, e a distinção depende do exame médico.
4. Doença de Ménière
A doença de Ménière está relacionada a alterações na quantidade e na pressão da endolinfa, líquido presente no ouvido interno.
A condição provoca crises recorrentes de vertigem que podem ser acompanhadas de:
- enjoo e vômitos;
- perda ou oscilação da audição;
- zumbido;
- sensação de pressão ou ouvido tapado;
- desequilíbrio.
As manifestações auditivas geralmente afetam um dos ouvidos, sobretudo no início da doença. A duração das crises e a presença de alterações na audiometria ajudam o médico a diferenciar a doença de Ménière de outras causas de vertigem.
Embora não exista uma cura definitiva, o acompanhamento adequado pode ajudar a controlar as crises, proteger a audição e reduzir o impacto da doença na rotina.
5. VPPB
Na vertigem posicional paroxística benigna, também chamada de VPPB ou “tontura dos cristais”, o paciente apresenta episódios curtos de vertigem desencadeados por determinados movimentos da cabeça.
As crises podem surgir ao:
- deitar ou levantar da cama;
- virar para um dos lados;
- olhar para cima;
- abaixar a cabeça;
- inclinar-se para pegar algum objeto.
A vertigem geralmente dura menos de um minuto, embora o enjoo e a sensação de instabilidade possam permanecer por mais tempo. Nistagmo, náusea e, em alguns casos, vômito também podem aparecer.
A VPPB ocorre quando pequenos cristais de carbonato de cálcio, chamados otólitos, saem de sua posição habitual e entram nos canais semicirculares do ouvido interno. Com o movimento da cabeça, essas partículas estimulam o sistema vestibular de forma inadequada e produzem uma falsa percepção de rotação.
O tratamento costuma ser realizado com manobras de reposicionamento, que conduzem os cristais de volta ao local adequado. Essas manobras devem ser indicadas após a identificação do lado e do canal afetados.
6. Enxaqueca vestibular
Na enxaqueca vestibular, episódios de tontura, vertigem ou desequilíbrio estão associados ao mecanismo da enxaqueca. O paciente pode apresentar:
- enjoo e vômitos;
- sensibilidade à luz, aos sons ou aos cheiros;
- desconforto com movimentos;
- piora em ambientes visualmente movimentados;
- aura visual;
- dor de cabeça pulsátil.
Entretanto, a dor de cabeça não precisa estar presente em todas as crises. Esse detalhe faz com que muitas pessoas não relacionem a tontura à enxaqueca.
As crises vestibulares podem durar de alguns minutos a várias horas e, em determinadas pessoas, persistir por dias. Histórico pessoal ou familiar de enxaqueca, sensibilidade a movimento desde a infância e gatilhos como privação de sono, estresse e alterações hormonais ajudam na investigação.
A enxaqueca vestibular pode afetar pessoas de diferentes idades, embora seja mais frequente em mulheres adultas. Seu diagnóstico é clínico e também exige a exclusão de outras condições capazes de produzir sintomas semelhantes.
Como as características da crise ajudam no diagnóstico?
O diagnóstico não pode ser estabelecido somente pela duração ou por um sintoma isolado. Entretanto, alguns padrões oferecem pistas importantes:
- surge com movimentos específicos da cabeça: é um padrão frequente na VPPB;
- vertigem contínua por horas ou dias, sem perda auditiva: pode ocorrer na neurite vestibular;
- crises recorrentes com zumbido e alteração da audição: podem sugerir doença de Ménière;
- tontura com sensibilidade à luz e ao som: pode estar relacionada à enxaqueca vestibular;
- sintomas surgem durante viagens ou exposição a movimentos: são característicos da cinetose;
- vertigem com perda auditiva recente: exige investigação de alterações do ouvido interno.
Na consulta, o médico também procura saber se a pessoa teve quedas, se os sintomas começaram após um medicamento, se há dor de cabeça, perda auditiva, visão dupla ou dificuldade para caminhar.
O exame pode incluir avaliação dos olhos, equilíbrio, marcha, coordenação e audição. Manobras posicionais, audiometria e testes vestibulares podem ser indicados conforme a suspeita. Tomografia e ressonância não são necessárias para todos os pacientes.
O que fazer durante uma crise de vertigem com enjoo?
Ao perceber uma crise, sente-se ou deite-se em um local seguro para evitar quedas. Tente manter a cabeça em uma posição confortável e evite levantar-se bruscamente.
Também é aconselhável não dirigir, subir escadas ou operar máquinas enquanto houver tontura ou desequilíbrio. Se ocorrerem vômitos, a reposição de líquidos deve ser feita aos poucos, desde que a pessoa esteja consciente e consiga engolir normalmente.
Não tome medicamentos para tontura ou enjoo repetidamente sem orientação. Alguns podem causar sonolência e aumentar o risco de quedas. Além disso, o uso prolongado de determinados supressores vestibulares pode dificultar a compensação natural do sistema de equilíbrio.
O tratamento correto depende da causa. A VPPB, por exemplo, é tratada com manobras, já a enxaqueca vestibular pode exigir controle de gatilhos e tratamento preventivo. Usar a mesma medicação para qualquer tipo de tontura não resolve o problema de origem.
Quando procurar atendimento médico?
Episódios recorrentes ou persistentes de enjoo, tontura e vertigem devem ser avaliados, principalmente quando interferem no trabalho, no sono, na alimentação ou na capacidade de caminhar.
Procure atendimento de urgência se a tontura e a vertigem surgirem de forma súbita e vierem acompanhadas de:
- fraqueza ou dormência em um lado do corpo;
- dificuldade para falar;
- confusão mental;
- visão dupla ou perda visual;
- dor de cabeça súbita e muito intensa;
- incapacidade de ficar em pé ou andar;
- desmaio ou convulsão;
- dor no peito ou falta de ar;
- vômitos persistentes;
- perda auditiva repentina.
Esses sinais não significam necessariamente que exista uma doença grave, mas exigem avaliação rápida.
O otorrinolaringologista ou o otoneurologista pode investigar especialmente os quadros de vertigem, desequilíbrio, zumbido e alterações auditivas. Dependendo das características dos sintomas, também pode ser necessário o acompanhamento de um neurologista, cardiologista ou clínico geral.
Perguntas frequentes
Tontura com enjoo é sempre labirintite?
Não. VPPB, enxaqueca vestibular, cinetose, neurite vestibular, doença de Ménière, queda de pressão, desidratação e outras condições também podem provocar tontura e enjoo. A verdadeira labirintite é apenas uma das possibilidades.
Qual é a diferença entre tontura e vertigem?
Tontura é um termo amplo que pode descrever desequilíbrio, cabeça leve, instabilidade ou sensação de desmaio. A vertigem é um tipo de tontura caracterizado pela falsa sensação de que o corpo ou o ambiente está movimentando.
Ansiedade pode causar enjoo e tontura?
Sim. Ansiedade e hiperventilação podem provocar cabeça leve, náusea, formigamento e sensação de desequilíbrio. Porém, sintomas persistentes ou recorrentes não devem ser atribuídos automaticamente à ansiedade sem avaliação adequada.
Vertigem ao virar na cama pode ser VPPB?
Esse é um padrão frequente da VPPB, especialmente quando a vertigem é intensa, dura poucos segundos e ocorre sempre com determinados movimentos. O diagnóstico deve ser confirmado por avaliação e manobras posicionais.