Pode usar aparelho auditivo em uma só orelha? O tratamento dessa forma é eficaz?
Não há restrições quanto ao uso do aparelho auditivo em apenas uma orelha, desde que seja constatado perda auditiva unilateral ou não exista possibilidade de benefício com o tratamento em um dos ouvidos. Em todos os casos, porém, a indicação e o acompanhamento do paciente por médicos e fonoaudiólogos é fundamental.
O nível de perda auditiva geralmente difere modestamente entre os dois ouvidos, mas não raramente há discrepâncias importantes. Há sim possibilidade de o paciente apresentar uma perda de audição importante de um lado e ter a audição normal no outro — um quadro esperado em casos de doenças ou traumas que acometem apenas um ouvido, por exemplo.
Diante desses quadros, surge a questão: será que pode usar aparelho auditivo em uma só orelha?
E a resposta é sim. Porém, ao realizar o tratamento dessa forma, podem ser necessários outros tipos de cuidados durante a adaptação. A seguir, explico melhor essa questão.
É fundamental ouvir dos dois lados?
Antes de discutir o uso de um único aparelho auditivo, é fundamental compreender a importância da audição binaural, ou seja, ouvir com os dois ouvidos. Infelizmente, muitas pessoas com perda de audição em um só ouvido desprezam o tratamento por se habituarem a viver com um único ouvido funcional, o que pode ser prejudicial.
Nossos ouvidos trabalham em conjunto para nos proporcionar uma experiência auditiva completa, o que inclui:
- localização sonora: conseguimos identificar a direção de onde um som vem (à direita, à esquerda, atrás ou à frente) porque o som chega aos nossos ouvidos em momentos ligeiramente diferentes e com intensidades variadas;
- compreensão da fala em ambientes ruidosos: em locais com muito barulho (como restaurantes ou festas), o cérebro usa as informações dos dois ouvidos para filtrar o ruído e focar na fala;
- qualidade sonora e profundidade: a audição binaural proporciona uma percepção sonora mais rica, natural e tridimensional;
- menor esforço auditivo: quando ambos os ouvidos funcionam bem (ou são auxiliados por aparelhos), o cérebro não precisa se esforçar tanto para processar os sons, reduzindo a fadiga auditiva;
- prevenção da privação auditiva: A privação auditiva ocorre quando um ouvido com perda de audição não é estimulado por um longo tempo, levando a uma diminuição da capacidade do cérebro de processar os sons daquele lado.
Diante desses fatos, mesmo que um dos ouvidos apresente audição normal, é fundamental que o paciente realize a reabilitação do ouvido com perda auditiva.
Quando é viável o uso do aparelho auditivo em uma só orelha?
Em todos os cenários possíveis, o tratamento da perda auditiva com um único aparelho, chamada de adaptação monoaural, só pode ser realizada sob indicação e acompanhamento do médico otorrinolaringologista ou otoneurologista, após esclarecido o diagnóstico que torne essa opção de tratamento viável.
A seguir, falo um pouco sobre os principais casos em que esse tipo de reabilitação auditiva é indicada.
Perda auditiva unilateral
Este é o caso mais direto. A pessoa possui audição normal ou quase normal em um ouvido e uma perda auditiva significativa no outro. Nesses casos, o aparelho é colocado no ouvido com perda para restaurar a audição naquele lado.
Existem outras soluções disponíveis em caso de perdas unilaterais totais, a depender do quadro do paciente, sendo muito comuns as do tipo CROS e as do tipo BiCROS.
Soluções CROS (Contralateral Routing of Signal)
Para perdas unilaterais totais, onde o ouvido afetado não se beneficia da amplificação tradicional, a tecnologia CROS é uma excelente opção. Um microfone é colocado no ouvido “surdo” para captar os sons desse lado e transmiti-los sem fio para um aparelho auditivo no ouvido com audição normal. Isso permite que a pessoa ouça sons vindos do seu lado “surdo” através do seu lado “bom”.
Soluções BiCROS
Se a pessoa tem um ouvido “surdo” e o outro ouvido tem uma perda auditiva que precisa de amplificação, a solução BiCROS é utilizada. O microfone no lado “surdo” capta o som e o envia para o aparelho no lado “melhor”, que não só amplifica o som desse lado, mas também o som vindo do lado oposto.
Perda auditiva bilateral assimétrica
Quando a perda auditiva existe em ambos os ouvidos, mas é muito mais severa em um deles, ou quando um dos ouvidos não apresenta benefício com a amplificação. Nesses casos, o médico pode optar por adaptar apenas o ouvido com maior potencial de benefício.
Condições médicas específicas
Algumas condições médicas podem impedir o uso de aparelho em uma das orelhas, como infecções crônicas, deformidades anatômicas ou cirurgias prévias que tornam o uso impossível ou contraindicado.
Decisão do paciente por razões pessoais
Embora não seja a recomendação padrão para perdas bilaterais, alguns pacientes podem optar por usar apenas um aparelho devido a questões de custo ou preferência pessoal. No entanto, é fundamental que o paciente seja totalmente informado sobre as desvantagens dessa escolha.
Usar aparelho auditivo em uma só orelha funciona?
Sim. Nos casos em que essa modalidade é indicada, o aparelho auditivo em uma só orelha pode proporcionar benefícios significativos, incluindo melhora da audibilidade, da compreensão da fala e também do zumbido, quando presente.
Entendo, porém, que muitas pessoas cogitam essa opção por questões financeiras, tendo em vista o “desconto” no investimento ao adquirir apenas um dispositivo. Entretanto, devo ressaltar que pacientes com perda auditiva bilateral que restringem o tratamento a um único ouvido não serão tão beneficiados e podem até apresentar problemas de adaptação no curto e longo prazo.
Sendo assim, esse tipo de adaptação só deve ser considerada quando, de fato, não houver possibilidade de aquisição do conjunto completo do aparelho. E, como dito, o paciente deve ser informado dos eventuais prejuízos ao conduzir o tratamento dessa forma.
Por que o acompanhamento com um especialista é fundamental?
Seja a adaptação monoaural, seja binaural, o sucesso do tratamento depende do acompanhamento de especialistas em todas as fases do processo:
- diagnóstico e avaliação: o otorrinolaringologista e o fonoaudiólogo realizarão exames detalhados para mapear a perda auditiva em cada ouvido;
- escolha do aparelho: baseada no tipo e grau da perda, estilo de vida do paciente e, se for o caso, nas tecnologias específicas (como CROS/BiCROS);
- programação e ajustes: o fonoaudiólogo programará o aparelho de acordo com as necessidades auditivas individuais de cada ouvido;
- acompanhamento e reabilitação: o cérebro precisa de tempo para se adaptar e, ao longo desse processo, o fonoaudiólogo fornecerá orientações sobre o uso gradual e manejo em diferentes ambientes e situações, fazendo ajustes finos no aparelho conforme a necessidade do paciente.
A paciência e a persistência são essenciais durante o período de adaptação, que pode levar algumas semanas ou até meses.
Por fim, também devo orientá-lo a fugir de aparelhos e tratamentos milagrosos ofertados em lojas suspeitas e na internet. Além do risco de golpes (como produtos e medicamentos ineficazes), se expor a tais soluções não só é ineficaz, como pode gerar outros problemas.
A perda auditiva é um sintoma que precisa ser investigado para garantir um manejo eficaz. Sempre consulte um médico otorrinolaringologista ou otoneurologista antes de iniciar qualquer tratamento dessa natureza.
Aproveite e confira também o nosso: Guia completo sobre aparelhos auditivos: tipos, indicações e orientações importantes
