Neuroplasticidade na perda auditiva e zumbido no ouvido

A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de reorganizar suas conexões e funções diante de mudanças no corpo e nos sentidos. Em casos de perda auditiva e zumbido, esse mecanismo exerce papel central tanto na adaptação do cérebro à redução da audição quanto na percepção persistente de sons inexistentes.

Durante muito tempo, acreditava-se que o cérebro adulto era uma estrutura relativamente fixa, incapaz de mudar de forma significativa após determinada idade. Hoje, sabemos que isso não é verdade. Na realidade, o cérebro possui uma capacidade impressionante de adaptação, o que chamamos de neuroplasticidade.

Esse fenômeno acontece o tempo todo: quando aprendemos uma habilidade nova, após uma lesão neurológica, durante processos de reabilitação e também diante de alterações sensoriais, como a perda auditiva.

Na otoneurologia, a neuroplasticidade tem grande importância para compreender dois fenômenos bastante comuns: a adaptação à perda auditiva e o surgimento do zumbido. Em muitos casos, o cérebro tenta compensar a diminuição dos estímulos sonoros recebidos pelos ouvidos, reorganizando circuitos neurais. Essa adaptação pode ser útil, mas também pode contribuir para sintomas desconfortáveis.

Compreender como o cérebro reage à perda auditiva ajuda o paciente a enxergar o tratamento de maneira mais ampla, indo além das condições e dos sintomas.

Continue a leitura para saber mais.

O que é neuroplasticidade?

Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura e funcionamento em resposta a estímulos, experiências ou lesões.

Na prática, isso significa que o cérebro consegue:

  • criar novas conexões neurais;
  • fortalecer ou enfraquecer circuitos existentes;
  • reorganizar áreas cerebrais;
  • adaptar-se a mudanças sensoriais.

Esse mecanismo é essencial para aprendizagem, memória e recuperação funcional. Porém, ele também pode participar de processos considerados “mal adaptativos”, como dores crônicas, ansiedade e zumbido.

Como o cérebro processa os sons?

Para entender a relação entre neuroplasticidade, perda auditiva e zumbido, é importante compreender como a audição funciona.

O som captado pelos ouvidos é transformado em sinais elétricos pelas células ciliadas da cóclea, localizada no ouvido interno. Esses sinais percorrem o nervo auditivo até chegarem ao cérebro.

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O córtex auditivo, localizado no lobo temporal (localizado nas laterais do cérebro, logo acima da altura das orelhas), interpreta essas informações e permite reconhecer vozes, música, direção dos sons e linguagem.

Quando existe perda auditiva, parte desses estímulos deixa de chegar adequadamente ao cérebro. É nesse momento que a neuroplasticidade começa a atuar de forma mais evidente.

O que acontece no cérebro durante a perda auditiva?

A redução da estimulação sonora provoca mudanças importantes nos circuitos neurais auditivos.

O cérebro humano não “gosta” de falta de estímulo. Quando determinadas áreas deixam de receber informações adequadas, outras regiões podem assumir funções compensatórias ou aumentar sua sensibilidade.

Entre as alterações observadas em exames de neuroimagem e estudos neurofisiológicos estão:

  • aumento da atividade espontânea neuronal;
  • maior sensibilidade a determinados sons;
  • reorganização do córtex auditivo;
  • mudanças em áreas ligadas à atenção e emoção.

Em alguns pacientes, isso facilita a adaptação à deficiência auditiva. Em outros, pode contribuir para o desenvolvimento do zumbido e da hipersensibilidade sonora.

Neuroplasticidade e zumbido: qual é a relação?

O zumbido é a percepção de um som sem fonte sonora externa. Pode ser percebido como chiado, apito, grilo, motor ou pressão sonora, entre outros descrições

Embora muitas pessoas associem o problema apenas ao ouvido, o zumbido está envolvido também com o cérebro.

Quando há perda auditiva, mesmo discreta, o cérebro recebe menos estímulos acústicos. Como forma de compensação, alguns neurônios aumentam sua atividade espontânea, numa tentativa de “preencher” a ausência de informação sonora.

Essa hiperatividade neural pode ser interpretada pelo cérebro como som.

Em termos simples, é como se o sistema auditivo aumentasse excessivamente o “volume interno” para tentar captar sinais que já não chegam adequadamente.

Por isso, muitos pacientes apresentam zumbido associado à perda auditiva, principalmente relacionada ao envelhecimento, exposição a ruídos intensos ou lesões cocleares.

Por que o zumbido incomoda mais algumas pessoas do que outras?

A intensidade do sofrimento causado pelo zumbido não depende apenas do volume percebido.

Existem pessoas com zumbidos discretos extremamente incomodadas e outras com sons intensos que convivem relativamente bem com o sintoma.

Isso acontece porque o cérebro emocional também participa do problema.

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Estruturas como o sistema límbico e áreas relacionadas à atenção podem reforçar continuamente a percepção do zumbido. Quanto mais vigilância, ansiedade e preocupação o paciente desenvolve, maior tende a ser o destaque dado ao som.

A neuroplasticidade também atua nesse processo.

Quando o cérebro passa meses ou anos reagindo negativamente ao zumbido, circuitos neurais relacionados à percepção sonora e ao alerta emocional podem se fortalecer. 

Em contrapartida, com orientação adequada, uma das principais linhas de tratamento do zumbido consiste justamente em promover a habituação do paciente ao ruído, reduzindo gradualmente a sua resposta emocional ao som.

Esse é um dos motivos pelos quais o tratamento do zumbido frequentemente envolve estratégias multidisciplinares.

O cérebro pode se readaptar?

Sim. A mesma neuroplasticidade envolvida no surgimento do zumbido também pode participar da melhora do sintoma.

O cérebro possui capacidade de reorganização contínua. Com tratamento adequado, muitos pacientes conseguem reduzir significativamente o incômodo causado pelo zumbido e melhorar a adaptação à perda auditiva.

Entre os fatores que favorecem essa readaptação estão:

  • reabilitação auditiva (geralmente com o uso de aparelhos auditivos);
  • aconselhamento;
  • terapia sonora;
  • controle da ansiedade;
  • melhora do sono;
  • redução do estresse;
  • treinamentos específicos para zumbido.

O objetivo do tratamento, portanto, não é apenas tratar a perda de audição, mas ajudar o cérebro a reorganizar a maneira como processa os sons.

O uso de aparelho auditivo ajuda a neuroplasticidade?

Em muitos casos, sim.

Pacientes com perda auditiva frequentemente reduzem involuntariamente a estimulação do córtex auditivo. Quanto maior o tempo sem tratamento, maiores podem ser algumas alterações adaptativas cerebrais.

O aparelho auditivo ajuda a restaurar parte da entrada sonora, oferecendo novamente estímulos adequados ao cérebro.

Isso pode trazer benefícios como:

  • melhora da compreensão da fala;
  • redução do esforço auditivo;
  • maior interação social;
  • menor fadiga mental;
  • possível redução do zumbido em alguns pacientes.

Além disso, a estimulação sonora contínua pode ajudar o cérebro a reorganizar circuitos auditivos de forma mais funcional, e até prevenir demência.

Habituação, um conceito importante

Um conceito muito importante no tratamento do zumbido é a habituação.

Em linhas gerais, habituação significa que o cérebro aprende gradualmente a considerar determinado estímulo como irrelevante, deixando de dar atenção constante a ele.

Isso acontece naturalmente com diversos estímulos do cotidiano. Por exemplo, muitas pessoas deixam de perceber o som do ventilador, da geladeira ou do trânsito após alguns minutos, horas ou dias de exposição.

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No caso do zumbido, o objetivo terapêutico muitas vezes é reduzir o peso emocional e atencional atribuído ao som.

Isso não significa “ignorar à força”, mas permitir que o cérebro reduza progressivamente a importância dada ao sintoma.

A neuroplasticidade é justamente o mecanismo que possibilita esse aprendizado cerebral.

Exposição ao silêncio pode piorar o zumbido?

Em alguns casos, sim.

Ambientes extremamente silenciosos podem aumentar a percepção do zumbido porque há menos sons externos competindo com a atividade neural interna.

Por isso, alguns pacientes se beneficiam de estratégias de enriquecimento sonoro, como:

  • sons ambientes suaves;
  • música relaxante;
  • ruído branco;
  • sons da natureza;
  • terapia sonora orientada.

O objetivo não é mascarar completamente o zumbido, mas reduzir o contraste entre o silêncio e a percepção sonora interna. Dessa forma, o paciente deixa de reagir ao sintoma, ao mesmo tempo que contribui para a habituação ao zumbido.

Saúde mental e neuroplasticidade auditiva

A relação entre audição e saúde emocional é muito mais profunda do que muitas pessoas imaginam.

Perda auditiva e zumbido podem aumentar o risco de:

  • ansiedade;
  • irritabilidade;
  • distúrbios do sono;
  • isolamento social;
  • fadiga mental;
  • sintomas depressivos.

Ao mesmo tempo, estados de estresse crônico podem aumentar a vigilância cerebral e intensificar a percepção do zumbido, criando um ciclo prejudicial.

Por isso, o cuidado moderno desses pacientes costuma envolver uma abordagem integrada, considerando sono, saúde emocional, hábitos de vida e qualidade auditiva.

Conclusão

A neuroplasticidade mostra que o cérebro está em constante transformação. Na perda auditiva e no zumbido, essa capacidade adaptativa pode tanto contribuir para sintomas quanto favorecer a recuperação funcional.

Hoje, sabe-se que o zumbido não é apenas um problema do ouvido, mas também uma manifestação de reorganizações cerebrais complexas. Da mesma forma, a reabilitação auditiva não atua somente amplificando sons, mas ajudando o cérebro a reinterpretar estímulos de maneira mais saudável.

Quanto mais precoce for o diagnóstico e o tratamento da perda auditiva, maiores tendem a ser as chances de adaptação adequada do sistema auditivo. A neuroplasticidade está acontecendo o tempo todo, porém, com o acompanhamento e estímulo adequado, essa adaptação pode ocorrer de maneira muito mais favorável para a qualidade de vida.

Para saber mais sobre zumbido, confira o nosso guia completo sobre o sintoma!

 


Sobre Dra Nathália Prudencio

Dra Nathália Prudencio é médica otoneurologista, especialista em tontura e zumbido. Saiba mais
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