Garotinha aprendendo o sinal "Eu te amo" em Libras

A Libras é uma língua completa, reconhecida oficialmente no Brasil e fundamental para a comunicação e a identidade de grande parte da comunidade surda. No entanto, a surdez não é uma condição única: diferentes pessoas utilizam diferentes formas de comunicação, incluindo a linguagem oral, a língua de sinais ou uma combinação de ambas.

Quando uma criança ou um adulto recebe o diagnóstico de perda auditiva severa, uma das primeiras dúvidas da família costuma ser: “será preciso aprender Libras?”

Essa pergunta é compreensível, mas não possui uma resposta única.

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é muito mais do que uma alternativa para quem não escuta. Trata-se de uma língua completa, reconhecida por lei, com estrutura gramatical própria e enorme importância para a identidade e a cultura da comunidade surda brasileira.

Ao mesmo tempo, nem toda pessoa com perda auditiva utiliza Libras como principal forma de comunicação. Algumas desenvolvem a linguagem oral, outras utilizam aparelhos auditivos ou implante coclear, enquanto muitas combinam diferentes estratégias ao longo da vida.

Neste artigo, você vai entender o que é a Libras, como ela funciona, quando costuma ser introduzida, quais são as diferenças entre surdez oralizada e sinalizada e por que não existe um único caminho para todas as pessoas surdas.

O que é Libras?

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a língua de sinais utilizada pela maior parte da comunidade surda no Brasil.

Ela foi reconhecida oficialmente pela Lei nº 10.436/2002, que estabeleceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão. Posteriormente, o Decreto nº 5.626/2005 regulamentou diversos aspectos relacionados ao seu ensino, à formação de profissionais e à acessibilidade.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, Libras não é uma linguagem universal.

Cada país — e, em alguns casos, diferentes regiões — possui sua própria língua de sinais, desenvolvida historicamente por suas comunidades surdas.

Por exemplo:

  • Brasil: Libras;
  • Estados Unidos: ASL (American Sign Language);
  • França: LSF (Langue des Signes Française);
  • Portugal: Língua Gestual Portuguesa.
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Assim como acontece com os idiomas falados, essas línguas apresentam diferenças de vocabulário, gramática e estrutura.

Libras não é português feito com as mãos

Esse é um dos equívocos mais comuns.

A Libras possui:

  • gramática própria;
  • ordem das palavras diferente do português;
  • expressões faciais com função gramatical;
  • recursos espaciais para construir frases;
  • vocabulário próprio.

Ou seja, não se trata de traduzir palavra por palavra do português.

Uma pessoa fluente em Libras aprende uma língua diferente do português, assim como alguém que aprende inglês ou espanhol.

Quem utiliza Libras?

Embora muitas pessoas associem a Libras apenas à surdez profunda, seu uso é bastante diverso.

Ela pode ser utilizada por:

  • pessoas com surdez congênita;
  • pessoas com perda auditiva severa ou profunda;
  • crianças surdas antes da alfabetização;
  • familiares;
  • professores;
  • intérpretes;
  • profissionais da saúde;
  • estudantes;
  • ouvintes que desejam aprender a língua.

Além disso, muitas pessoas ouvintes fazem parte da comunidade usuária de Libras por motivos familiares, profissionais ou acadêmicos.

Toda pessoa surda usa Libras?

Não.

Essa talvez seja a informação mais importante deste artigo.

A perda auditiva é muito heterogênea.

Algumas pessoas utilizam apenas a fala e fazem leitura labial, outras utilizam apenas Libras. Há quem use Libras e português oral, assim como quem use Libras e português escrito. Há também pessoas que utilizam aparelhos auditivos e implantes cocleares, combinando ou não outros tipos de linguagem.

Não existe uma única forma “correta” de comunicação para pessoas com surdez. Cada pessoa desenvolve seu percurso de acordo com fatores como:

  • grau da perda auditiva;
  • idade em que ocorreu a perda;
  • acesso ao diagnóstico precoce;
  • recursos terapêuticos disponíveis;
  • contexto familiar;
  • preferências individuais;
  • oportunidades educacionais.

O que significa surdez oralizada?

A expressão surdez oralizada refere-se às pessoas surdas que utilizam predominantemente a linguagem oral para se comunicar.

Elas podem desenvolver essa habilidade por meio de:

  • estimulação precoce;
  • terapia fonoaudiológica;
  • aparelhos auditivos;
  • implante coclear;
  • leitura labial.

Isso não significa que a audição seja normal.

Na verdade, a pessoa utiliza recursos tecnológicos e terapêuticos para ampliar sua capacidade de compreender e produzir a fala.

Algumas pessoas oralizadas também aprendem Libras posteriormente. Outras nunca utilizam a língua de sinais.

O que significa surdez sinalizada?

Já a surdez sinalizada refere-se às pessoas cuja principal forma de comunicação é a língua de sinais.

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Nesses casos, a Libras costuma representar a primeira língua (L1), enquanto o português escrito pode ser aprendido como segunda língua (L2).

Para muitas pessoas surdas, a Libras não é apenas um meio de comunicação, mas também um elemento central de identidade cultural.

Existe conflito entre oralização e Libras?

Durante muitos anos houve debates intensos sobre esse tema.

Atualmente, o entendimento predominante entre especialistas é que as necessidades das pessoas devem ser avaliadas individualmente.

Em vez de enxergar Libras e oralização como estratégias opostas, muitos profissionais defendem abordagens que valorizem todas as formas de comunicação disponíveis.

O mais importante é garantir que as pessoas (especialmente crianças) tenham acesso à linguagem, seja ela por meio da língua oral, da Libras ou da combinação de ambas, sempre considerando as características de cada caso.

Quando a Libras deve ser introduzida?

Quanto mais cedo uma criança tiver acesso a uma língua plenamente acessível, melhor tende a ser seu desenvolvimento linguístico.

Nos casos de perda auditiva significativa, a introdução da Libras pode ocorrer ainda nos primeiros anos de vida, especialmente quando ela representa a forma mais eficiente de comunicação para aquela criança.

Isso é importante porque o cérebro infantil possui um período de grande plasticidade para aquisição da linguagem.

Privar uma criança desse acesso por muito tempo pode trazer impactos no desenvolvimento linguístico, cognitivo, social e educacional.

Ao mesmo tempo, crianças com perda auditiva que apresentam bom acesso aos sons por meio de aparelhos auditivos ou implante coclear também podem desenvolver a linguagem oral com sucesso. A decisão sobre as estratégias de comunicação deve ser tomada em conjunto pela família e pela equipe multiprofissional.

A criança pode aprender Libras e português ao mesmo tempo?

Sim.

Assim como crianças ouvintes podem crescer em ambientes bilíngues, crianças surdas também podem aprender duas línguas simultaneamente.

Em muitos casos, a Libras funciona como primeira língua, enquanto o português escrito é desenvolvido gradualmente ao longo da escolarização.

Esse modelo bilíngue é adotado em diversas instituições especializadas.

Libras atrapalha o desenvolvimento da fala?

Não há evidências de que aprender Libras impeça uma criança de desenvolver linguagem oral quando ela possui condições para isso.

Pelo contrário, oferecer acesso precoce à linguagem favorece o desenvolvimento cognitivo e comunicativo.

Quando indicada, a Libras representa uma forma de garantir que a criança tenha uma língua plenamente acessível desde cedo.

Qual é o papel do implante coclear e dos aparelhos auditivos?

Os aparelhos auditivos e o implante coclear não substituem automaticamente a Libras.

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Eles são recursos tecnológicos que podem proporcionar acesso aos sons em diferentes graus de benefício.

Os resultados variam conforme fatores como:

  • idade da intervenção;
  • tipo de perda auditiva;
  • tempo de privação auditiva;
  • participação na reabilitação;
  • características individuais.

Algumas pessoas implantadas utilizam apenas a linguagem oral. Outras combinam implante coclear e Libras.

Ambos os caminhos são possíveis.

A família também deve aprender Libras?

Sempre que a Libras fizer parte da comunicação da criança, é altamente recomendável que familiares próximos aprendam a língua.

Quando pais, irmãos e cuidadores conseguem se comunicar fluentemente com a criança, há maior oportunidade de interação, desenvolvimento emocional, aprendizagem e fortalecimento dos vínculos familiares.

A comunicação não deve ficar restrita apenas à escola ou aos profissionais de saúde.

Como aprender Libras?

Hoje existem diversas possibilidades:

  • cursos presenciais;
  • cursos online;
  • instituições especializadas;
  • universidades;
  • associações de pessoas surdas;
  • materiais educativos;
  • grupos de prática.

O contato frequente com usuários fluentes da língua costuma acelerar bastante o aprendizado.

Perguntas frequentes

Respostas rápidas para algumas dúvidas frequentes sobre o assunto.

Libras é uma linguagem ou uma língua?

Libras é uma língua, pois possui gramática, estrutura e regras próprias.

Toda pessoa surda precisa aprender Libras?

Não. Algumas utilizam predominantemente a linguagem oral, outras utilizam Libras e muitas combinam diferentes formas de comunicação.

Quem usa aparelho auditivo também pode aprender Libras?

Sim. O uso de aparelhos auditivos ou implante coclear não impede nem substitui o aprendizado da Libras.

Libras é igual em todos os países?

Não. Cada país possui sua própria língua de sinais.

Crianças ouvintes podem aprender Libras?

Sim. Crianças ouvintes aprendem Libras com facilidade, especialmente quando convivem com pessoas surdas ou estudam em ambientes bilíngues.

Conclusão

A surdez não é uma condição única, diferentes pessoas utilizam diferentes formas de comunicação, incluindo a linguagem oral, a língua de sinais ou uma combinação de ambas. A Libras é uma língua completa, reconhecida oficialmente no Brasil, fundamental não apenas para a comunicação, mas também para a identidade de grande parte da comunidade surda.

É fundamental que cada criança e cada adulto tenha acesso à comunicação, partindo de um diagnóstico adequado e um plano terapêutico individualizado. Com apoio especializado e participação da família é possível favorecer o desenvolvimento linguístico, a inclusão e a qualidade de vida.

Quer se aprofundar mais? Confira nosso guia completo sobre perda auditiva: o que é, sinais, causas, tratamentos, diagnóstico e prevenção.

 


Sobre Dra Nathália Prudencio

Dra Nathália Prudencio é médica otoneurologista, especialista em tontura e zumbido. Saiba mais
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